Quem tenha passado na Damaia em finais dos anos 80 talvez se recorde de uma escultura em tubos de ferro, com formas curvas e triangulares, situada no meio da Praça das Águas Livres, junto à estação de comboios. A peça em questão era um monumento ao 25 de Abril, da autoria de um grupo de trabalhadores da SOREFAME.

O monumento habitou a Praça das Águas Livres durante cerca de 12 anos. Nesse tempo, os seus braços curvos a apontar para cima, e as suas pernas curvas a apontar para baixo, iluminadas de noite, refletiam os arcos do aqueduto que atravessa a praça.

Nasceu de um monte de ferro, num espaço precário, o sol de Agosto aquecendo o metal que os trabalhadores iam moldando com a ajuda de um maçarico e da areia compactada no interior dos tubos.

Foi construído a título voluntário, nas horas livres do trabalho.

Apesar de abstrata, a escultura tem uma simbologia precisa: as pernas que entram no solo representam as raízes do 25 de Abril a crescer, os braços erguidos, a força do povo a subir da terra. O pilar é um rebento, fazendo-se planta toda a estrutura, uma metáfora verde de esperança e renovação.

Baseada no desenho de um arquitecto cujo nome foi entretanto esquecido, a estrutura composta por dois tripés entrelaçados e uma estreita coluna triangular foi construída na festa do Avante, e posteriormente montada na Praça das Águas Livres. Os tubos de ferro foram pintados com tinta de alumínio, para prevenir a oxidação, e instalou-se iluminação localizada. Assim ficou até finais da década de 90.

Não sabemos a data exacta de remoção, mas terá sido entre 1997 e 1999 que a Câmara Municipal da Amadora retirou a escultura do local, armazenando-a num estaleiro com a vaga promessa de a voltar a colocar noutro sítio. No seu lugar, foi plantada uma oliveira.

O monumento na Praça das Águas Livres com os arcos do aqueduto ao fundo.

Em 1997, o escultor Jorge Vieira ganha um concurso para construir um monumento a ser colocado na ponte Vasco da Gama. A proposta é uma peça em ferro, composta por dois tripés fixados um ao outro por um eixo central, um assente na terra, o outro, mais aberto, voltado para o céu, e um fino pilar com o dobro da altura do resto.

Se é evidente uma semelhança formal à escultura da Damaia, o simbolismo desta vez associa-se a elementos náuticos: os dois tripés, em forma de proa e caverna de um barco, são as duas margens do Tejo unidas por uma ponte. O pilar representa uma balestilha.

Em 1998, a peça foi colocada à entrada sul da ponte. Terá sido antes, depois, ou no exacto momento em que o monumento ao 25 de Abril desapareceu do seu posto na Praça das Águas Livres?

Escultura de Jorge Vieira na portagem da ponte Vasco da Gama.

O motivo dos tripés entrelaçados já tinha ocorrido anteriormente na obra de Vieira, notavelmente com uma escultura integrada na proposta vencedora do concurso de "valorização plástica" do maciço norte da ponte sobre o Tejo, em 1964. Apesar de ter ganho, o projeto nunca foi realizado, alegadamente por não ter agradado a Salazar.

Ao contrário das mais recentes, esta peça tinha um nome: Símbolo. E, segundo a memória descritiva do projeto, simbolizava “na união entre as duas margens do Tejo, todo o esforço, tenacidade e pertinácia com que o Homem procura elevar-se sempre mais alto”.

A forma, pontiaguda e vertical, ecoa o massivo pilar 7 da ponte a que hoje chamamos 25 de Abril, ao lado do qual se teria situado, se o projeto se tivesse realizado.

Na escultura da outra ponte, placidamente sentada ao lado da portagem do Montijo, a verticalidade separa-se dos tripés, dando origem à balestilha que os acompanha.

Na Damaia, os arcos do aqueduto continuam a fazer lembrar as formas da escultura que já não lá está.

A Praça das Águas Livres sem o monumento.
O planeta Marte.
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