As Mulheres Portuguesas Gratas a Salazar

Foi inaugurada em 1948, no Jardim da Imprensa à Estrela, “por iniciativa de um grupo de senhoras” que quereriam agradecer a Salazar o ter poupado as suas famílias à guerra. Não sabemos exactamente como se organizou esta homenagem, mas estiveram envolvidas na inauguração algumas mulheres associadas de perto com o regime: D. Fernanda de Castro, a Viscondessa de Asseca, que seria próxima de Salazar, e D. Maria de Carvalho, que escrevia para o boletim da Mocidade Portuguesa Feminina.

Em 1973, a estátua figura numa reportagem da RTP sobre Leopoldo de Almeida, e nota-se que já perdeu alguma da sua alva brancura. De olhos inchados, parece chorar lágrimas de sangue, talvez pelo horror da guerra colonial.

No ano seguinte, e na sequência da revolução, aparece decapitada, desconhecendo-se o paradeiro da sua cabeça.

As Mulheres Portuguesas Gratas a Salazar perde a cabeça (desenho).

Já era madrugada quando Renato chegou a casa, empurrando um carrinho de mão com um objecto de contornos imperceptíveis lá dentro. Pela forma cuidadosa como descera a Calçada da Estrela, segurando o carrinho como que para evitar que ele fosse por ali abaixo sozinho, parecia ser um objecto pesado. Carrinho e seu conteúdo finalmente estacionados na pequena oficina que ocupava a maior parte do quintal, Renato foi-se deitar.

Na manhã seguinte, já se encontrava Renato atarefado com uma encomenda, bateu à porta o vizinho Tó. Tó estava desempregado e vinha frequentemente dar uma mãozinha na oficina, a troco de almoço e conversa.

-Então, como vai isso? Precisas de ajuda?

- Entra, entra. Estou a acabar de pintar uma peça, não tenho mais nada neste momento, mas fazes-me companhia.

- O que é isto? - o carrinho de mão ainda estava no sítio onde Renato o deixara na noite anterior.

- Olha vê lá que ontem à noite, passava ali no jardim atrás da Assembleia e vi uns fulanos à cacetada à estátua que está no meio do jardim, a das mulheres pelo Salazar. A cabeça da estátua caiu, eles viram-me e puseram-se a andar. Eu fiquei sem reacção, mas depois, estava ali a cabeça no meio do chão ... vim buscar o carrinho de mão, fui de volta lá acima e trouxe-a para aqui. Eles iam destruí-la de qualquer maneira… e não é feia, o que achas?

- Ahhh… sabes quem é que faz lembrar? A Amália.

- Pois é, agora que o dizes… de facto há uma parecença.

- Tens a cabeça da Amália no quintal! O que é que vais fazer com ela?

- Fica aí a enfeitar… espera, acho que tenho ali um pedaço de mármore branco… olha lá, e se lhe fizéssemos uma base? Ficava bem, hã?

Quando Renato faleceu, em 2003, entre os bens herdados pela sua sobrinha Conceição encontrava-se um busto da fadista Amália, de autor desconhecido. Conceição nunca ligou a fado e vendeu o busto, junto com outros haveres de Renato que ela não tinha espaço para guardar no seu apartamento moderno, a um antiquário.

Desenho de busto de Amália, feito com a cabeça das Mulheres Portuguesas Gratas a Salazar Voltar à página inicial