Estátua de Camões no Largo Camões

Do alto do seu plinto, Camões mira o largo do Chiado.

Esta posição permite-lhe vislumbrar o início da Rua Garret, a vista enquadrada pelas igrejas do Loreto e da Encarnação. Para a esquerda, o fundo da Rua da Misericórdia. Para a direita, o topo da Rua do Alecrim. À sua volta, no largo espaço empedrado, pequenos grupos, casais, turistas circulam, ignorando o poeta na sua coluna marmórea.

Fernando Pessoa está no seu local habitual, rodeado de gente.

A maioria são turistas, sentam-se para a foto e despedem-se logo de seguida. Mas Camões inveja a intimidade de entrar assim nos retratos de família, de ter companhia, ainda que momentânea, na monotonia diária de não sair do mesmo sítio.

Estátua de Fernando Pessoa na esplanada da Brasileira
Gostava que as pessoas se aproximassem de mim...
Cara da estátua de Camões

Camões sonha que à sua volta foi construída uma varanda, um pequeno miradouro circular a que se pode aceder por um escadote de metal, como um escorrega de parque infantil. Não é fácil subir; só os mais jovens e em boa forma lá chegam. Esperam por alguém à sua sombra, ou, de noite, sentam-se a beber cerveja.

Camões com uma varanda em volta do pedestal.

As suas pernas, capa, livros, estão agora cobertos de inscrições a tinta e pequenas bolas de pastilha elástica seca.

Vista aproximada de livros e capa de Camões.
Será a tinta tão corrosiva como o cocó de pombo?
Cara da estátua de Camões

Ao acordar, vai ter com Pessoa.

Camões desceu do pedestal e atravessa o largo em direcção ao Largo do Chiado.
Camões de pé, atrás de Fernando Pessoa.

- Fernando, alguma vez te riscaram com tinta?

- Nao me lembro, Luis, mas se sim fui logo limpo. Estou aqui em exposição, e dá mau aspecto para a casa se me apresentar manchado.

- Gostava de ser como tu, ter gente à volta o dia todo. Estou ali empoleirado, ninguém me vê, não falam comigo, lá de vez em quando me tiram uma fotografia mas… é uma vida muito triste.

- Então e os teus amigos no andar de baixo? Não te fazem companhia?

- Epá, nem me digas nada. São uns invejosos, só falam mal de mim. Vivem no passado, a relembrar velhas intrigas, nem reparam no que se passa em redor. Uma tristeza, meu amigo.

- Fica aqui um bocado, logo te fartas da vida de esplanada. E enquanto não, podemos ir conversando.

Camões põe-se de pé atrás da cadeira vazia, mas o seu tamanho monumental atrapalha a circulação. Aquele romântico do Victor Bastos bem me podia ter feito a uma escala mais humana, resmunga, encolhendo-se o mais possível.

Um empregado da Brasileira tropeça na sua capa, entornando-lhe duas bicas em cima. Camões decide que está na hora de sair dali.

Camões de pé, ao lado de Fernando Pessoa.

- Olha amigo, obrigado pela companhia, mas isto está impossível. Vou dar uma volta à beira mar, onde há mais espaço.

- Boa sorte! Olha… se vais descer, passa pelo Eça. Ele tem muitas histórias de interacções com pessoas, que talvez te interessem.

Passados três dias, o plinto no meio da praça Luís de Camões continua vazio. Ninguém parece ter reparado.

Camões deitado em cima de uma toalha na praia, ao sol.
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