Lembro-me de quando isto era tudo pavilhões... ...e tínhamos montes de visitas todos os dias! Dois dos cavalos marinhos da Praça do Império, em conversa um com o outro.

- Lembras-te daquele edifício redondo, parecia um bolo? - Suspira.

- (Estás sempre com fome.) E a Soberania?

- Coitada, levaram-na daqui às postas.

- E quando a cabeça do outro foi parar ao rio? Isso é que foi rir...

- E os amigos dele foram-se todos embora e deixaram-no ali a flutuar...

- Mas depois voltaram a pô-los lá todos, só que em pedra, para durarem mais.

- Já tinham feito o mesmo connosco… e com as senhoras ali da praça ao lado também.

Os dois irmãos ficam em silêncio alguns momentos.

- Ontem sonhei que estávamos na piscina com o pessoal ali do barco. O D. Henrique a ter uma conversa muito séria contigo, e o Infante Santo mal disposto, todo enrolado no chão.

- Como se estarão eles a dar no campo? Às vezes gostava de ter ido para lá também. Estava habituado a ter paz e sossego, e agora, é só miúdos a correr de um lado para outro o dia todo… e à noite gente a beber até às tantas. Estou velho para isto.

Fonte da Praça do Império rodeada de areia; as esculturas dos cavalos marinhos tomam banho na fonte e uma escultura de mulher anda sobre a areia.

A Praça do Império foi planeada e construída para a Exposição do Mundo Portugues de 1940. O objectivo principal era abrir o espaço entre os Jerónimos e o Tejo, espaço que anteriormente era ocupado por casas, tecido urbano sem pretensões de monumentalidade, e assim engrandecer o velho mosteiro, cuja história se entrelaça com a da expansão colonial.

Demolição de casas em frente aos Jerónimos.

Para efeitos da exposição, que durou apenas seis meses, a praça rodeou-se de pavilhões recheados de conteúdo didático, patriótico e religioso, com que se pretendia levar os portugueses a olhar para dentro, e esquecer a guerra que dividia a Europa.

Passada a exposição, manteve-se o enorme vazio criado pela praça defronte dos Jerónimos, e a sua fonte luminosa, cuja implacável horizontalidade acentua a aridez do espaço.

Vista aerea da Praça do Império com o Mosteiro dos Jerónimos ao fundo.

O padrão dos descobrimentos foi demolido em 1943, tendo na altura o ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, mandado estudar a possibilidade de o reconstruir em materiais definitivos, ideia a que o arquitecto do Padrão, Cottinelli Telmo, se opunha. A reconstrução viria a ser feita apenas em 1960, no contexto das comemorações do aniversário da morte do Infante D Henrique.

Conta-se que D. Henrique, empoleirado no topo do padrão, terá perdido a cabeça numa tempestade violenta em 1941, mas não há registos fotográficos da ocorrência. Imaginamos que a cabeça (que foi encontrada a flutuar no rio) tenha sido prontamente recolocada no corpo do Infante, senão teríamos de concluir que ele passou os dois anos seguintes decapitado, situação embaraçosa para uma figura histórica tão importante. De resto, como o reconheceríamos sem o seu chapéu?

Cabeça do Infante D. Henrique.
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