A Amadora é a cidade de Abril – nasceu como conselho depois do 25 de Abril. Por isso se decidiu que a Amadora iria acolher um monumento ao 25 de Abril. Falou-se com um arquitecto para desenhar o monumento e depois o pessoal da SOREFAME foi contactado para ajudar na feitura da peça. António Tremoço, entrevista, 2008.

1985

O arquitecto considerou o problema. Sentado diante de uma folha de papel, faz alguns rabiscos. O monumento tem de ser moderno, de espírito revolucionário, diferente da arte do antigo regime. Deve transmitir o enraizamento dos valores da revolução, mas também o seu progresso, como uma força que continua a crescer. Metáforas de crescimento orgânico intercalam-se com objectos industriais. É essencial romper com o passado.

Finalmente esboça um conjunto de duas formas: uma, tripartida, de braços ligeiramente curvos a enraizar-se no solo e outra semelhante – do mesmo modo que a estrutura dos ramos da copa de uma árvore faz lembrar o sistema de raízes – numa posição ascendente, ligeiramente mais aberta. Cada conjunto de braços encontra-se ao meio, fazendo uma pirâmide triangular. A estrutura é feita de tubo, transparente e leve

Satisfeito com a ideia que assim toma forma, o arquitecto decide fazer uma maqueta para melhor visualizar a peça. Com um rolo de arame fino e um ferro de soldar, depressa constrói um modelo. Entretém-se a dispor os dois volumes de modo a que fiquem ligeiramente deslocados um do outro. Finalmente, constrói um fino elemento vertical – um pilar com cerca de 2,5 vezes a altura da peça principal – e coloca-o para um lado, como um rebento que nasce da terra.

Quando os operários vêem o modelo, gostam da forma, mas uma análise mais cuidada mostra que terão de ser feitos alguns ajustes, para garantir a segurança da estrutura no espaço público. As alterações são discutidas com um arquitecto relutante, temendo que a sua ideia seja desvirtuada. Duas dezenas de homens dispostos a aplicar os seus tempos livres na construção daquele monumento, com meia dúzia de ferramentas básicas e boa vontade: a equipa, experiente na construção de objectos utilitários, aborda a resolução prática da peça de acordo com os seus conhecimentos. Será uma peça para levar a revolução a bom porto.

A construção decorreu no Alto da Ajuda, então local da Festa do Avante. Era verão e a peça deveria estar pronta para a abertura da festa. As alterações ao projecto original foram bastantes, no sentido de tornar a peça mais robusta e aerodinâmica. Agora que começava a tomar forma, sugeriam-se-lhes outros ajustes.

Uma tarde passou pela construção um visitante. Três elementos da equipa encontravam-se no terreno a soldar partes de um braço inferior. O visitante cumprimentou-os e deteve-se um pouco a examinar uma pirâmide triangular inacabada. Um dos operários aproximou-se e explicou-lhe o que estavam a construir; gerou-se uma animada conversa. O visitante viu os desenhos da peça em construção; foram-lhe descritas as alterações mais recentes. Ficou pensativo um pouco e deu então uma ou duas sugestões. Entretanto, os outros dois operários juntaram-se à conversa; as novas propostas foram discutidas agitadamente. A certa altura pareceram chegar a uma conclusão. O visitante retirou do bolso um pedaço de papel dobrado,passando-o ao primeiro operário. Despediu-se em seguida e continuou o seu passeio. A equipa voltou ao trabalho.

Dois dias depois, um camião sem nome estacionou junto à peça semi-construída. Saíram dois homens e, da traseira da carrinha, começaram a remover caixotes e objectos volumosos. Os construtores ajudam, até que todo o conteúdo do camião se encontra no chão, em redor da escultura. O camião vai-se embora, deixando os operários de volta dos caixotes, de onde retiram o que parecem ser partes de máquinas.

A peça foi concluída; chamaram o arquitecto para a apreciar. O monumento resplandecia à entrada do recinto, a frágil maqueta de arame irreconhecível na sua presença sólida de objecto industrial. O arquitecto percebeu que as alterações tinham apenas dado origem a um objecto mais adequado às suas funções que o original

Qualquer coisa não pode ser um monumento.

Acabada a festa, pensou-se em encontrar um local permanente para o monumento. Foi aberto um concurso entre as freguesias do concelho da Amadora; a Damaia ganhou. A Praça das Águas Livres, com o elegante enquadramento dos arcos do aqueduto, foi o local escolhido para a colocação definitiva da peça.

1999

A meio da noite uma figura embrulhada aproxima-se do monumento na Praça das Águas Livres e esconde-se no seu interior. Passam 20 minutos das duas da manhã. Às 02:35 sente-se uma forte explosão; os edifícios circundantes estremecem. Quem estava na rua àquela hora viu uma nuvem de fumo na praça e uma forma alongada, vagamente reminiscente do monumento que lá estava, erguer-se do meio e, ganhando velocidade, desaparecer no céu. Pouco antes de desaparecer completamente soltam-se dela três pedaços incandescentes, que caem algures a norte da praça. Quando o fumo se dispersou, o corpo principal do monumento tinha desaparecido. Restava apenas o elemento vertical, um pouco chamuscado.

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